BIOMAS E QUARESMA

Iniciamos nessa quarta-feira passada o tempo de conversão por excelência na Igreja. Não que os outros não o sejam, mas assim como há estações do ano (inverno, primavera, verão e outono), há também o tempo forte para os exercícios espirituais de introspecção e de conversão de nossos corações.

Há muito tempo nós descobrimos que no catolicismo existe um grupo às margens do lago (às margens do evangelho) que buscam milagres por ouvirem falar de um certo nazareno capaz de transformar suas vidas. Mas há um recorte nessa transformação: olhamos apenas as nossas dores, aquelas feridas que machucam e por isso buscamos uma cura. Mas a proposta do evangelho é de uma cura integral. Não somente das feridas, mas do nosso ser inteiro. É preciso nascer de novo e matarmos o homem velho que existe em nós. A morte não deixa dúvidas: aniquila os órgãos feridos, mas também aqueles que estão bons, em pleno funcionamento. E para que tal radicalidade? Para o ruim ficar bom e para o bom ficar ótimo. A morte é uma falência completa à espera da ressurreição. Muitos de nós se agarram aos órgãos sãos para anunciar Jesus. Muitos de nós se agarram aos órgãos com problemas para buscar uma cura através de Jesus. Todos somos caminheiros nessa terra, nesse tempo que Deus nos deu aqui para testemunharmos o amor d’Ele por nós. Muitos de nós, ainda, preferem se digladiar dizendo ser mais importante prestar atenção aos órgãos que estão bons, como se todos os órgãos de todos os irmãos estivessem bons. Outros, só querem compaixão (co+paixão=que alguém partilhe da mesma dor que ele) e assim os ajude a dividir o peso da cruz. Assim se forma a divisão na Igreja. Eu acho isso... eu acho aquilo... e achando, sem caridade, a gente vai afastando os irmãos das margens e os despedindo, sem oferecer o pão.

Quando tratamos de conversão, queremos uma conversão não somente das mãos que se elevam aos céus para louvar a Deus. Também é preciso uma conversão das mãos que se dão aos irmãos e formam fraternidade. É assim a cruz de Jesus. Uma estaca e um patíbulo. É bem verdade que entre nós existem aqueles que foram chamados para contemplação e também há aqueles que foram chamados para ser mão que agarra os irmãos na perdição. Mas não há exclusividade para uma ou outra ação. Há uma complementariedade. A cruz não tem somente uma haste!

Nesse tempo de conversão, somos chamados na Igreja do Brasil a observarmos os biomas. Mas, o texto base nos faz pensar em irmos além: “À luz da fé, nos interrogaremos nas reflexões desta Campanha da Fraternidade de 2017 sobre o significado dos desafios apresentados pela situação atual dos biomas e dos povos que neles vivem. E abordaremos as principais iniciativas já existentes para a manutenção de nossa riqueza natural básica. Apontaremos propostas sobre o que podemos e devemos fazer em respeito à criação que Deus nos deu para cultivá-la e guardá-la.” Observe que o texto implica em observarmos OS POVOS QUE NELES VIVEM. São irmãos! Não são pessoas distantes. A questão ecológica está de volta esse ano. Os termos parecem cultos demais e podem mesmo afastar um olhar mais distante, daqueles que estão para além das margens da Igreja. Nosso papel de evangelizador é canalizar a essência para os irmãos de toda multidão, a fim de que o evangelho chegue a todas as criaturas. Podemos, de pronto, pensar que muitos nas margens são coerentes o suficiente para não destratar a natureza, a casa comum, o meio ambiente e não precisam fazer essa reflexão. São os que têm os órgãos sãos. Em perfeita harmonia com a proposta de Deus para criação. Por outro lado, não seria, quem sabe, presunçoso pensar que toda a multidão está nesse mesmo patamar? Não seria um tanto quanto egoísta? É apenas uma reflexão. Cada um de nós faz seu próprio exame de consciência. Talvez quiséssemos outro tema, mais espiritual para o tempo quaresmal (mais estaca e menos patíbulo), mas não foi assim esse ano. Nossa conversão integral implica em olharmos o complexo todo. Será que já esquecemos do sangue da irmã Dorothy Stang? Será que vivemos em um planeta irmanado e fraternal? A campanha da fraternidade tem esse nome justamente para nos lembrar da “fraternidade”, do patíbulo, da haste horizontal da cruz, das mãos que se dão em busca de uma unidade. A quaresma nos convida à penitência, à oração e ao silêncio. Antes de pensar que são opostos, poderíamos pensar que são complementares. Se há alguém que seja só patíbulo, a quaresma o convida a viver a oração intensamente. Se há aquele que seja apenas estaca, a CF o convida a olhar para os irmãos ao seu redor e amá-los como a si mesmo.

O mais inquietante para nós é como agir. Sim, refletirmos sobre a natureza, sobre os povos que vivem em cada bioma brasileiro é muito bonito e por si só deve gerar em nós um desejo de orar pelos irmãos e por nós mesmos (vivemos, claro em um bioma). Mas que ação concreta devemos fazer. Partimos da mensagem do papa Francisco no dia mundial pelo Cuidado da Criação/2016. No texto base da CF vemos esse pequeno resumo: “Francisco convida a renovar o diálogo sobre os sofrimentos que afligem os pobres e a devastação do meio ambiente. Para o Papa Francisco, é por nossa causa que milhares de espécies já não dão glória a Deus com sua existência. É devido à atividade humana que o planeta continua a aquecer. Este aquecimento provoca mudanças climáticas que geram a dolorosa crise dos migrantes forçados. Os pobres do mundo, embora sejam os menos responsáveis pelas mudanças climáticas, são os mais vulneráveis e já sofrem os seus efeitos.” A partir dessa reflexão temos algumas pistas: primeiro, não se esconder do patíbulo. Olhar ao redor. Ver os irmãos na multidão. Enxergar a dor dos mais distantes. Segundo, não ser meio-profeta, apenas anunciando as maravilhas do reino, mas ser profeta por inteiro, também denunciando as injustiças e lutando por um mundo melhor. Terceiro, fazendo coisas simples como não jogar papel na rua, não fazer um conversão irregular no trânsito, ensinando nossos filhos a não desperdiçar água, visitando comunidades carentes e levando conforto, mas também orientação sobre higiene. Quarto, reaproveitando os folhetos litúrgicos para entregar em presídios ou para reciclagem e tantas coisas que nossa criatividade nos permita em vistas ao bem comum.

Vivamos a CF em harmonia com a quaresma. Eles se completam, como se completa a cruz de Jesus. Se a CF não nos agrada, silenciemos como exercício quaresmal. Se a quaresma não nos agrada, gritemos pelo auxílio de Deus para os irmãos (e assim já vivemos a experiência da kenosis quaresmal). Àqueles a quem Deus deu um dom, não despreze o dom do outro. A mão é tão digna quanto o pé dentro do corpo místico de Cristo. Em tudo, no agrado ou no desagrado, oremos sem cessar!

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